Tapumes usados pela prefeitura para garantir a proteção de bens e pontos importantes viraram telas e garantem o visual de festa

Ouro Preto – Segurança para os foliões, proteção do patrimônio cultural e garantia de um carnaval como o povo gosta: com muita cor e alegria. Monumentos e outros pontos importantes do Centro Histórico da cidade reconhecida como Patrimônio da Humanidade estão cercados, neste carnaval, por tapumes, a exemplo da Ponte dos Contos, na Rua São José, a fim de evitar acidentes e danos às construções históricas.

Mas para não ficar só na madeira, estudantes e funcionários da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), em parceria com a prefeitura local, via Secretaria de Turismo, Indústria e Comércio, pintam nessa grande tela a céu aberto as figuras do bloco Zé Pereira dos Lacaios, atraindo olhares de admiração dos moradores e turistas. A festa foi aberta na noite de ontem e tem ampla programação para todos os públicos, com vários blocos e palcos na sede e distritos (veja destaques da programação).
Em plena comemoração dos seus 150 anos de história, o Zé Pereira dos Lacaios é o tema do carnaval de Ouro Preto que espera, segundo o prefeito Júlio Pimenta, cerca de 30 mil pessoas por dia, com segurança a cargo de 137 militares e equipes de empresa particular. Uma novidade é que, embora sem alegorias e depois de dois anos fora de cena, voltará o desfile das escolas de samba, marcado para segunda-feira. Em tempos de caixa vazio, a Prefeitura de Ouro Preto faz uma festa autossustentável, com patrocínio (R$ 2,3 milhões) de fabricante de cerveja e de água mineral. “O esquema de limpeza para todos os dias também está pronto”, diz o prefeito.

No interior mineiro, muitas cidades mantêm a tradição de fazer o carnaval para moradores e visitantes, com samba no pé, blocos animados e trio elétrico. Em todos os municípios, principalmente naqueles de passado colonial, devem prevalecer as recomendações do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) para proteger bem igrejas, casarões e museus, bem como evitar acidentes com os foliões, principalmente quanto ao afastamento de barracas e palcos de shows da rede elétrica.

Natália Silva participa da ação, feliz por manter uma tradição e proteger o patrimônio cultural de Ouro Preto (foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS)

TODOS OS TONS Na rua São José, uma das movimentadas do Centro Histórico de Ouro Preto e com muitas sacadas dos casarões enfeitadas com máscaras e fitas coloridas, a equipe da Faop está a postos, munida de tintas, pincéis e muita criatividade. Para evitar respingos no passeio de pedras, foi estendido um longo rolo de plástico preto. Nos tapumes, vão surgindo as figuras dos bonecos mais antigos do bloco, o Catitão, a Baiana e o Benedito. Na coordenação, está a professora Ana Célia Teixeira, que orienta a turma. O estudante de museologia e funcionário da fundação, Juliano Moreira, mostra concentração no trabalho, enquanto Natália Dutra e Silva, aluna de arquitetura e de artes na fundação, fica feliz por manter uma tradição. “Isso é muito bacana. Quando era criança, via essa proteção da ponte. Hoje, estou aqui pintando as figuras do bloco”, contou.

Olhando o “ateliê” sobre a Ponte dos Contos, o garçom Iuri Marques, de 26 anos, elogia: “A cidade está com a cara do carnaval. Quanto mais colorido, melhor. Está excelente”. Preparada para brincar até terça-feira, a cozinheira Liliane Vieira, de 27, gostou do que viu e considera importante preservar. Os demais tapumes vão ficar em becos da Praça Tiradentes e no Muro dos Namorados, no Bairro Rosário.

Na movimentada Rua São José, sacadas de casarões já estão enfeitadas com máscaras e fitas coloridas (foto: Beto Novaes/EM/D.A PRESS)

Na Praça Tiradentes, já está montado um palco para shows, vazado no fundo, permitindo que os foliões enxerguem o Palácio da Inconfidência. O secretário municipal de Cultura e Patrimônio, Zaqueu Astoni Moreira, explica que foi firmado um termo de ajustamento de conduta (TAC) com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), para proteção do patrimônio edificado e impedir outros impactos na paisagem urbana. O documento tem a anuência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – o Centro Histórico de Ouro Preto é tombado pelo Iphan e reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) –, da Polícia Militar e das secretarias municipais de Saúde, Cultura e Patrimônio e de governo.

SEM CRISE Mesmo com dificuldades financeiras, algumas cidades de Minas (veja quadro) resistem bravamente e vão pôr o bloco na rua e som na caixa para o povo pular. “Fizemos uma grande reformulação no nosso carnaval e estamos seguindo uma tendência que é sucesso em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Itabirito tem um bom carnaval de rua e muitos blocos. Aproveitamos os turistas que visitam Ouro Preto, para fazer a economia girar”, diz o secretário municipal de Patrimônio Cultural e Turismo, Ubiraney de Figueiredo Silva, que participa hoje da festa de abertura organizada pela prefeitura. Como novidade este ano, haverá uma edição especial do Festival Experimenta, oferecendo uma série de cervejas artesanais.

Quem visitar Tiradentes, na Região do Campo das Vertentes, vai ver as belezas do conjunto arquitetônico e participar do Carnaval Cultural, com 16 blocos e shows no Largo das Forras. A abertura oficial também é hoje e a festa terá patrocínio para aliviar os cofres públicos. Sabará, na Grande BH, não perde o pique e promete muita alegria no Largo do Barão, onde desfilam as escolas de samba, e no Centro, para a passagem dos blocos caricatos. Já a vizinha Santa Luzia traz de volta o Santa Luzia Folia, resgatando a festa de outros carnavais. Desta vez, haverá palcos para shows na Rua Direita, na Praça da Matriz, no Centro Histórico, e no distrito de São Benedito.

No Vale do Jequitinhonha, Diamantina reestruturou a folia e quer atingir todos os públicos – crianças, jovens e idosos das várias regiões do município. Mesmo em muitas cidades que não terão patrocínio oficial, haverá manifestações espontâneas, afinal, uma fantasia e um tamborim podem saudar o reinado de Momo.

Enquanto isso…

…LIMPEZA DO MUSEU

A limpeza da pichação no Museu da Inconfidência, no Centro Histórico de Ouro Preto, na Região Central, foi concluída ontem. Na tarde de quarta-feira, sem luz solar incidindo sobre as pedras de cantaria da fachada lateral, o restaurador Aldo Araújo iniciou o serviço, aplicando produtos específicos para a pedra, os quais foram doados por um empresário paulista. Os estragos no Inconfidência, o segundo museu mais visitado do país, ocorreram na madrugada do dia 6, mas a Polícia Civil ainda não identificou o responsável ou responsáveis. Devido à situação, a direção do museu instalou mais câmeras de vigilância no entorno da construção do século 18.

 

Fonte: Estado de Minas, 24 de fevereiro de 2017