Chácara dos Inconfidentes, Ouro Preto

Conhecida como “Casa dos Revoltosos”, “Chácara Boa Vista” ou “Casa dos Inconfidentes”, o imóvel esteve em ruínas por longo período, mas resistiu às intempéries cristalizando-se, no imaginário coletivo, como mais um dos símbolos da Conjuração Mineira, uma vez que pode ter sediado reuniões dos envolvidos no famoso episódio.
Embora nenhum documento ateste que a mencionada casa fizesse, realmente, parte do roteiro freqüentado pelos líderes do movimento libertário, alguns historiadores afirmam que o imóvel pertenceu a José Álvares Maciel, natural da Santa Maria Maior, Arcebispado de Braga, Portugal, que veio para o Brasil aos treze anos e, depois de passar pela Bahia e pelo Rio de Janeiro, fixou residência em Vila Rica (atual Ouro Preto, MG), onde se casou com Juliana Francisca de Oliveira e galgou ilustre carreira, chegando a ocupar, no século XVIII, o importante cargo de Capitão-mor.
De acordo com Tarquínio Barbosa , a Casa dos Inconfidentes não possui nenhuma relação com o movimento político, o que, certamente, merece o benefício da dúvida, uma vez que, segundo o mesmo autor, o imóvel pertencia a José Álvares Maciel, cujo filho, seu homônimo, e o genro, Francisco de Paula Freire de Andrade, estavam dentre os principais líderes do movimento.
José Álvares Maciel, o filho, teve participação fundamental na idealização da Inconfidência Mineira, modernamente chamada de Conjuração . Natural de Vila Rica, foi batizado na capela de Santa Quitéria, freguesia de Nossa Senhora do Pilar, em 1º de maio de 1760, bacharelou-se em Filosofia Natural (Ciências Naturais) pela Universidade de Coimbra, após o que seguiu para a Inglaterra, local em que aperfeiçoou seus estudos acerca das siderurgias e manufaturas e manteve contato não apenas com industriais e técnicos, mas também com as ideias do liberalismo e da maçonaria.
Entre 1787 e 1788, em nova viagem à Coimbra, encontrou-se com José Joaquim da Maia, que conseguira do Embaixador dos Estados Unidos na França, Thomaz Jefferson, a promessa de apoio às aspirações de libertação dos brasileiros. Após inúmeras andanças pela Europa, Maciel regressou ao Rio de Janeiro em meados de 1788, transferindo-se, posteriormente, para Vila Rica, onde logo se integrou ao grupo idealizador da Inconfidência Mineira.

A utopia de conquistar a independência teve curta duração para os idealistas de Vila Rica. Antes de concretizar o sonho de liberdade, os inconfidentes foram denunciados. O jovem Maciel, acusado como um dos líderes do movimento, apenas um ano após regressar à terra natal foi preso, em 28 de junho de 1789, e levado para a Fortaleza de São Francisco Xavier da Ilha de Villegagnon, no Rio de Janeiro, onde permaneceu até maio de 1792, quando de seu degredo para Angola. Depois de cumprir pena, tornou-se representante comercial dos negociantes de Luanda e proprietário de uma pequena siderurgia na localidade de Trombeta, Província de Itamba. Faleceu em março de 1804 ou 1805.
O outro inconfidente a guardar relação com a Casa dos Inconfidentes é o Tenente-Coronel do Regimento de Dragões de Minas Gerais, Francisco de Paula Freire de Andrade, que se casou com D. Isabel Carolina de Oliveira Maciel, filha de José Álvares Maciel, pai.

Nascido em 1752, no Rio de Janeiro, era filho do 2° Conde de Bobadela, o Coronel José Antônio Freire de Andrade, que governou a Capitania mineira entre 1752 e 1758. Apesar do seu altíssimo posto militar, participou da conspiração republicana não apenas como idealizador, mas patrocinando-a e franqueando sua casa para ali se reunirem os conjurados. Quando descoberta a conspiração, Paula Freire foi preso e sentenciado à morte, como Tiradentes, mas teve sua pena comutada em degredo para Moçambique, onde aportou em 1792. Apesar do seu grande desejo de retornar à pátria, não pôde realizá-lo, pois só teve licença para fazê-lo em 1808, ano em que faleceu.
Como se vê, comprovando-se que a Casa dos Inconfidentes pertenceu mesmo ao Capitão-mor José Álvares Maciel, é inevitável relacioná-la ao movimento inconfidente, pois, ainda que as reuniões do grupo não ocorressem no local, sendo os inconfidentes Álvares Maciel e Paula Freire membros do núcleo central da família do proprietário, seriam também, certamente, freqüentadores do imóvel.
Abandonada e em estado de total declínio, a propriedade, então constituída por “uma casa e terreno, conhecido por Chácara dos Inconfidentes ou Boa Vista, no caminho de Saramenha (…) medindo 60 palmos de frente e 100 de fundos, em ruínas, com água própria, terreno alcantifado e com pasto cercado” , em 1929 pertencia à Empresa Industrial de Melhoramentos no Brasil, instituição que, reconhecendo a importância da edificação para o patrimônio cultural, resolveu doá-la ao município. Tal doação se concretizou em 27 de junho de 1930, como revela documento anexo à escritura, por meio do texto abaixo transcrito:

sabendo que [era] desejo da municipalidade conservar essa propriedade histórica, e não tendo representante em Ouro Preto que se [encarregasse] da conservação do imóvel mantendo essa relíquia em condições desejáveis, resolveu dar a propriedade à Municipalidade de Ouro Preto, crendo assim ir ao encontro dos desejos do povo dessa histórica cidade .

A primeira reforma de que há registros ocorreu em 1970. Assim que terminada, a casa foi alugada por longos períodos até que passou a funcionar como hospedaria destinada a convidados da Prefeitura
A segunda reforma, já em 2009, foi desenvolvida pela então Secretaria Municipal de Patrimônio e Desenvolvimento Urbano, e conta com projeto que apresenta memorial descritivo confirmando tratar-se de imóvel no século XVIII, como se lê abaixo:

Construída no séc. XVIII, a casa da Chácara das Boas Vistas¨, chamada também dos Inconfidentes, em Ouro Preto, sofreu várias intervenções até os dias de hoje, sem contudo desfigurar seu partido original e seu sistema construtivo.

Fonte: Museu Casa dos Inconfidentes